domingo, 20 de setembro de 2020

Coração das Trevas - Joseph Conrad

Publicado em 3 partes em 1899, recebeu sua primeira edição completa em 1902. Curiosamente, não chamou atenção na época, chegando a ser criticado (por motivos diferentes dos atuais, diga-se) e chamado de obra menor. O tempo se encarregou da impressionante mudança: hoje, além de analisado e estudado à exaustão, é considerado um dos melhores livros de todos os tempos (ocupa a posição 26 da The Greatest Books). 

Baseado nas próprias experiências de Conrad, temos aqui uma história dentro da história: o narrador, a bordo de uma embarcação no Rio Tâmisa, reproduz o relato de um marinheiro, Marlow, na sua busca por Kurtz, um mercador que vem desagradando seus contratantes exploradores de marfim. Apesar de não identificada, a ação se passa no Congo (África), na época da colonização belga. 

Não vejo outra forma de encarar Coração das Trevas a não ser se DEDICANDO a cada palavra da obra. É daqueles livros que exigem atenção absoluta, febril. Se precisar voltar páginas, volte, é imprescindível se conectar ao raciocínio de Marlow. Obviamente não é uma leitura fácil, se por um lado a linguagem é acessível, o encadeamento das percepções de Marlow pode afungentar o leitor médio. 

A selva e o rio são protagonistas aqui, Conrad entrega um misto de fascínio e terror desconcertante. Para o escritor, a jornada a Kurtz é a jornada a loucura, quanto mais distante do conceito europeu de civilização, mais próximo das trevas da alma. Aqui começam os problemas que o livro enfrenta desde os anos 1970, muitos o consideram racista e xenófobo. Vamos por partes: primeiro vale salientar que Conrad não era nenhum tolo deslumbrado, o livro tece uma crítica ao modelo predatório europeu, um diálogo entre Marlow e sua tia é categórico nesse sentido. Também as estações de retirada de marfim são retratadas como insanos modelos exploratórios. 

No entanto, Conrad é um homem do século 19, e seu pavor pelo que considera "selvagem" reflete a propaganda que embasava o imperialismo. Que fique claro uma coisa: o livro é e continuará sendo uma obra-prima da literatura universal. Deve obviamente ser lido levando em consideração o contexto da época. Não estou passando pano pro Conrad, apenas acho interessantíssimo que a obra congele no tempo a percepção, ignorante que seja, que um europeu tinha daquela região naquele momento. Acaba funcionando no final das contas também como romance histórico (acredito que todas as edições hoje venham acompanhadas de ensaios que contextualizam a coisa toda). 

Primeiro livro 5 estrelas que leio este ano. Gostaria de indicar sem restrições, mas não é o tipo de leitura que funciona pra todos. Leitores mais calejados devem tentar. Recomendo ainda um filme como belo complemento: Apocalypse Now de Francis Ford Coppola

5 estrelas