segunda-feira, 10 de maio de 2010

Virginie Boutaud, a princesa do pop nacional oitentista


Em 1985 você ligava o rádio e escutava o verso “minha mãe me falou que eu preciso casar...”, era Beat Acelerado, single de estréia de uma desconhecida banda chamada "Metrô". A melodia era certeira e a letra engraçada/sacana, mostrando as desventuras de uma garota avessa à monogamia. A voz feminina era o que mais chamava atenção, Virginie era o nome da dona dos vocais. O lado B trazia Sândalo de Dândi, outra melodia inesquecível, que em menor escala também tocou nas rádios. Ficou a curiosidade, teria surgido uma rival a altura de Paula Toller e seu Kid Abelha?

A resposta veio alguns meses depois, quando o LP Olhar invadiu rádios de todo Brasil. O carro chefe era ”Tudo Pode Mudar (No Balanço das Horas)”, ainda hoje uma das músicas mais lembradas dos anos 80. A banda cai no ritmo vertiginoso da vida pop star: shows, entrevistas, programas de TV, viagens, festas e até cinema (Areias Escaldantes e Rock Estrela, onde tocam ao lado de Léo Jaime). O estigma de "one hit wonder" é mandado pro espaço: emplacam pelo menos 5 sucessos radiofônicos ("Beat Acelerado", "Sândalo de Dândi","Johnny Love", "Ti Ti Ti" e "Tudo Pode Mudar"), sem falar em músicas tão boas ou melhores que os hits, como Olhar e Hawaii.

Os músicos eram surpreendentemente bons para o pop radiofônico proposto, mas o que tornava a banda especial era a vocalista, e que voz ela tinha! Virginie Boutaud cantava de maneira tão doce e afinada que doía na alma, atingia o cérebro e se instalava no coração pra nunca mais sair, era um anjo cantando. Pra completar, tinha um jeitinho de princesa francesa, era enérgica e teatral no palco, carisma puro. As mulheres a imitavam, os homens a desejavam. Lembro de ter me apaixonado no primeiro segundo que a vi cantando, era impossível não gostar dela. Logo surgiram comparações com Rita Lee; “Nara Leão new wave”, falaram alguns; João Gilberto elogiou; até a revista Playboy assediou a princesa, recebendo um “não” como resposta.



Entra o ano de 86 e acontece o impensável: Virginie fora do Metrô. Esse continua sendo, pelo menos pra mim, um dos mais nebulosos acontecimentos do pop nacional oitentista. Procurando arquivos, como o da finada revista Bizz, e logicamente googleando, pouco se descobre (alias, material sobre a banda é raro e superficial). A primeira impressão que ficou é que Virginie, a estrela, resolveu partir pra carreira solo (algo semelhante a saída de Cazuza do Barão), mas segundo consta, a verdade é mais absurda ainda: os caras da banda resolveram fazer um som “sério, cabeça, adulto” (seja lá que diabos isso for), e viram a Virginie como um empecilho para tal guinada (!?), expulsando-a da banda...e não é só: os figuras chamaram um português ”indie rock” pra assumir a voz (pior que isso, só se chamassem um argentino), parece piada mas não é (esta versão foi confirmada pela cantora em recente entrevista). O resultado foi óbvio, fracasso absoluto e total do disco com o cantor português, além de episódios constrangedores de fãs querendo espancar os carinhas. Em 88, 3 anos após o estouro nacional, a banda encerrava melanconicamente as atividades. Ninguém comentou ou muito menos lamentou. Bem, se a verdade é esta mesmo (acho difícil que seja só isso), o que dizer desses caras?

E a Virginie? Tentou carreira solo, o disco não emplacou, e no final dos 80 já era ex-estrela, uma ilustre desconhecida. Com o fim dos 80’s surgiu todo um novo e segmentado mercado, rock nacional saiu de moda e o circo pop costuma ser implacável com o “velho”. Sim, mas voltando a Virginie: a princesa casou com um diplomata francês e vive pelo mundo acompanhando o marido, mora atualmente em Madagascar, é professora e mãe de duas filhas. Em 2002 ela lançou um disco, elogiado e sem repercussão, com a banda Metrô. Essa história fica pra uma outra oportunidade...

A banda, o sucesso, os 80’s chegaram ao fim, mas Virginie, a princesa do pop nacional oitentista, continuará eternamente cantando no meu coração e nas lembranças dessa incrível festa que foi a década de 1980:

“Eu vivo sempre voando
Sempre sonhando te encontrar
Nas ruas, nas esquinas
Sempre querendo o teu olhar
O teu olhar me enfeitiçou
E eu continuo a vagar
Noite adentro, chuva e vento
Quem vem me buscar?
Noite adentro, chuva e vento...”