quarta-feira, 13 de outubro de 2021

Os Detetives Selvagens - Roberto Bolaño

624 páginas, demorei basicamente 2 meses pra terminar. Não é uma leitura fácil, seu caráter fragmentado, episódico, faz parecer maior que é. Mesmo com essas ressalvas é o melhor livro que li este ano. Um trabalho formidável de Bolaño, que definiu a obra como "uma carta de amor à minha geração", bingo!

É dividido em 3 partes, a primeira é a transcrição do diário de um jovem pretendente a poeta no México dos anos 70, Garcia Madeiro, e sua aproximação a um grupo chamado "real viceralistas" liderado por Arturo Belano (alter-ego do escritor) e Ulises Lima. O que no início parece banal e corriqueiro, logo cativa pelo desfile de personagens e suas particularidades. 

A segunda parte, que corresponde a 80% do texto e leva o nome do título do livro, reproduz dezenas de depoimentos de dezenas de personagens. Os depoimentos parecem fazer parte de uma grande investigação sobre Belano e Lima, acontece que os depoentes acabam muitas vezes falando mais sobre si. Aqui, nessa enorme coletânea de declarações, Bolaño mostra seu talento excepcional. É simplesmente assombroso como ele encarna os mais diversos tipos sem nunca duvidarmos nem por um segundo deles. Um rigoroso exercício literário.

Na terceira e última parte, retomamos o diário de Madero na sua fuga ao lado de Belano, Lima e Lupe. Um desfecho melancólico e também triunfal, já que deve ter sido um esforço colossal dar luz a um texto epistolar, "roman à clef", gigantesco como esse. 

É uma pena que a bolanomania tenha rolado após a morte do escritor, ele MERECIA ter obtido mais sucesso em vida, de qualquer forma, antes tarde que nunca. Pegue coragem e leia.

4,5 estrelas

quinta-feira, 16 de setembro de 2021

Dark Souls 2 - Scholar of the First Sin (Xbox Series S)

Meu contato com a franquia Souls foi errático, zerei primeiro o 3, depois o 1 e por fim o 2. Esse 2, versão completa e revisada chamada Scholar of the First Sin, sempre foi considerado o patinho feio dos jogos da From, é o único da trilogia não dirigido pelo Miyazaki (na época trabalhava em Bloodborne) e, curiosamente, o único indicado a jogo do ano na Game Awards.

De cara estranhei demais a coisa toda: câmera, gráfico, narrativa. Queria porque queria que fosse igual aos outros dois e cheguei a pensar em abandonar o jogo. Esfriei a cabeça e decidi jogar sem preconceito, entender as escolhas da equipe criativa. Pois bem, o que começou com um pé atrás, logo se tornou uma paixão. Sim, pela terceira vez seguida fiquei totalmente imerso naquele mundo assustador e fascinante da saga. A equipe tomou algumas boas decisões, como teleporte nas fogueiras desde o início, e algumas polêmicas, como a diminuição da barra de energia em cada morte (até a metade). Se isso já causa ansiedade até num veterano, pro novato é o mesmo que jogar com uma arma apontada pra cabeça. Claro que com o tempo você se acostuma e tudo vira diversão, mas quantos não desistiram antes disso?

Não que a From esteja superpreocupada, a altíssima dificuldade é o cartão de visita da empresa, mas de qualquer forma esse cruel sistema punitivo foi acertadamente retirado de Dark Souls 3, o que prova que nem o Miyazaki concordou com a parada. 

A despeito disso, Dark Souls 2 sempre foi criticado por ser "fácil", então os realizadores foram na corda dos nerds e nessa versão final deixaram tudo bem difícil. Sério, alguns designs e posicionamento de inimigos são projetados pra destruir o espírito do jogador, acabar com autoestima. Tem que ter garra, perseverança, muita vontade de vencer e claro, TEMPO livre.

É um jogo longo, belo e de design espetacular. Algumas pessoas acham exageradamente longo e com algumas áreas desnecessárias, pois eu não retiraria absolutamente nada da campanha, é tudo muito divertido e cativante. Continua incrivelmente imersivo, do tipo que não sai da tua cabeça em lugar nenhum, apesar de contar com npcs, quests, covenants e lores, abaixo dos outros dois (o que é óbvio, devido ao fator Miyazaki).

Fiquei positivamente surpreso com a altíssima qualidade deste jogo. Dark Souls é provavelmente a melhor trilogia de games que já joguei e ainda perfeitamente desfrutável mesmo tendo muitos anos nas costas.

Não consigo imaginar outra nota além de 10.

Nota 10

quarta-feira, 8 de setembro de 2021

Senjutsu - Iron Maiden

Pra escutar Senjutsu você deve esquecer os 7 discos dos anos 80, aquela banda não existe mais. Hoje o Iron é uma entidade enorme dividida entre dois polos, Bruce e Steve, que fazem o que querem no ritmo que querem. 

Minha primeira impressão: chato e mal gravado. Minha impressão depois da quarta audição: um disco absolutamente brilhante.

É preciso ter tempo e disposição para escutar músicas enormes que às vezes passam de 10 minutos, quem nos dias de hoje faz isso? Bem, eu e muitos fizeram, e é o melhor disco desde Seventh Son. 

A faixa título, Stratego, Writing on the Wall, Days of Future Past, etc, tem MUITA música boa para os dispostos, no entanto, é perto do final que os veteranos mostram a razão de serem tão reverenciados: Death of the Celts e Hell on Earth, obras-primas que nenhuma banda no mundo seria capaz de fazer, SÓ o Maiden.

Escute e vá ao show, porque quando a máquina parar, quando Harris aposentar o baixo, uma era também vai junto e a lacuna não vai ser preenchida.

sexta-feira, 27 de agosto de 2021

Dark Souls Remastered (Xbox Series S)

Estava receoso de encarar Dark Souls, afinal é um jogo da geração retrasada e que acaba de completar 10 anos. Pois bem, meu receio felizmente se mostrou infundado, esta versão Remastered ainda é perfeitamente jogável pros padrões atuais, mais que isso, continua muito bonito e absolutamente divertido e desafiante. Rodando em fullhd e 60fps, os 10 anos de idade não atrapalharam em nada minha conclusão final: um dos melhores jogos da história dos videogames. 

Estar entre os melhores é pouco, a obra-prima de Hidetaka Miyazaki pertence ao seleto grupo de jogos que virou a indústria de ponta cabeça. As 2 últimas vezes que isso aconteceu foi com o sandbox de GTA III e o fps inacreditável de Call of Duty IV Modern Warfare. A "revolução" Dark Souls foi ainda mais controversa, já que se trata de um jogo extremamente difícil, cujo o percentual de jogadores que conseguem finalizá-lo fica em 18%.

Todos os jogos posteriores do Miyazaki levantaram a questão, estaria a FromSoftware dando as costas pra acessibilidade e focando num esnobe público hardcore? Deixo o debate pros dispostos, vou agora ao resumo da coisa: a chama do mundo está acabando, e com a escuridão surge toda sorte de desgraças. Você, o morto vivo messias, tem a missão de enfrentar incontáveis desafios e inimigos para acender a  luz do mundo. Perdoe-me o tosco resumo, é que se trata de um jogo onde as informações vão chegando aos poucos e você vai preenchendo as lacunas com boa memória e criatividade, é a tal da lore.

Logo nas 10 primeiras horas fiquei de queixo caído com a visão, com a ousadia da equipe da From, veja que a empresa não era nenhuma gigante como Activision, EA ou Ubisoft, mas meteram a cara, mergulharam de cabeça num jogo de profundidade absurda, cheio de detalhes e complexidade. Um mundo vivo, pulsante, onde npcs vem e vão sempre com comportamentos e diálogos inesperados. Quests e covenants, terror, ação, aventura, um caminhão de coisas pra fazer...Dark Souls vai te deixar tão ligado que qualquer coisa que vier depois vai parecer brincadeira de criança.

Claro, é um dos jogos mais difíceis já feitos. Parece ser uma espécie de preço pago pelos que ousarem adentrar seus segredos. Você vai ter que escalar a montanha, vencer a muralha que apenas uma minoria consegue. 

O jogo esconde um monte de informações, inimigos, missões, diversão. Ele confia até demais na inteligência do jogador e na verdade não parece estar muito preocupado com os que vão ficar na superfície. Essa na verdade é uma das razões do fascínio inacreditável que o jogo exerce, sempre tem um monte de coisas pra fazer, e você não fez porque...bem, ainda não se "empenhou" o suficiente, talvez...

Aqui entra o que considero um problema nos jogos do Miyazaki: é muito, mas MUITO difícil caminhar 100% do tempo com as próprias pernas, você vai se encontrar dezenas de vezes sem saber o que fazer e, consequentemente, ser forçado a consultar soluções na internet. Sério, considero mais difícil saber o próximo passo a ser dado do que propriamente os combates.

Então é isso, não é um jogo pra todos, apenas para os mais insistentes, experientes e que dispõe de tempo livre, muito, se possível. Quem superar o que parecia impossível vai enfrentar um grande problema na sequência, como igualar tal experiência?

Nota 10

sexta-feira, 13 de agosto de 2021

Dark Souls III (Xbox Series S)

Depois de terminar meu primeiro jogo do Miyazaki, Sekiro, fiquei obviamente de olho na franquia Dark Souls. Até que na última promoção da Microsoft acabei pegando a trilogia. Comecei por esse III e de cara fiquei de queixo caído pelo visual belíssimo, cada área mais impressionante que a outra. Os inéditos 60fps dessa versão do Xbox Series transformaram a boa jogabilidade em algo sensacional, especialmente porque esse é o tipo de jogo que exige reflexos de aço.

A história, ou melhor, lore, é enroladinha: alguns lordes, que tradicionalmente se sacrificariam para acender uma chama que mantém o equilíbrio do mundo, se recusam a cumprir tal dever. Então você, um morto vivo, é destinado a fazê-los aceitar seus destinos na marra. Entendeu? Nem precisa, porque essa obra-prima traz toneladas de mistérios, segredos, armas, cidades perdidas, inimigos, aliados, monstros, armaduras, magias, guerreiros, etc, etc, etc. É pura diversão gamer que faz valer cada centavo do dinheiro investido.

Como já é tradição nos jogos da From/Miyazaki, a grande quantidade de conteúdo acaba levando o jogador a procurar soluções na internet, não adianta ficar chateado, é muito difícil conseguir uma boa performance em side-quests e bosses sem aquela mãozinha do YouTube. Com relação a dificuldade, de cara me surpreendi com a facilidade com que venci os 3 primeiros chefes, mas depois...morri dezenas e dezenas de vezes, na verdade centenas. Em certos momentos, avançar de uma fogueira a outra é um desafio mais brutal que o próprio chefe. Por falar em chefes, temos 19 deles no jogo base, vários memoráveis: Dançarina do Vale Boreal, Os Irmãos, Vigilantes do Abismo, Armadura do Matador de Dragão, Pontífice Sulyvahn e aquele que, pelo menos pra mim, foi o mais difícil: Alma das Cinzas. Acredito ter tentado próximo de 100 vezes até conseguir vencê-lo.

70 horas inesquecíveis em mais uma superjogo da FromSoftware, que criminosamente não foi finalista ao GOTY da TGA. Não seria honesto da minha parte dar menos que 10.

Nota 10

sexta-feira, 30 de julho de 2021

O Rei do Mundo - David Remnick

O Rei do Mundo não é o livro ideal pra quem procura uma biografia de Muhammad Ali. O que temos aqui na verdade é jornalismo de qualidade: Remnick, editor da The New Yorker e vencedor do Pulitzer, centra fogo na primeira metade dos 60's pra narrar a trajetória e rivalidade de 3 pesos-pesados, Floyd Patterson, Sony Liston e Cassius Clay (aka Ali). Deste ponto de partida o escritor traça um painel político e social da América daquela época.

Então fique avisado, o livro traz altas doses de questões raciais, religiosas e políticas, tudo material interessante e bem escrito, acontece que fica divertido pra valer quando fala do assunto que procurávamos, boxe, então tome histórias de bastidores, treinos e lutas.

Particularmente fiquei impressionado com a agressividade com que Ali abordava os adversários, era uma figura vilanesca, sem dúvida, mas que acabou por ganhar contornos heróicos. Nesse ponto o livro brilha, joga um imenso holofote no jovem e arrogante Cassius Clay, que provocava adversários de forma tão escandalosa que muitos acreditavam ser maluco. Outro tema abordado sem concessões é seu envolvimento com o islamismo, que o levou a declarações e atitudes polêmicas que modificariam radicalmente sua carreira. Aqui as contradições do futuro herói americano são expostas, seria ele um bravo modelo de comportamento, ou apenas um tolo manipulado?

O destaque vai para as 2 lutas polêmicas com Sony Liston. Antes do livro eu tinha certeza da fraude, a mim parecia óbvio que Liston as entregou, acontece que lendo os detalhes destrinchados por Remnick você começa também a considerar a hipótese de uma vitória legítima, principalmente na primeira.

Um belo livro pra fãs de boxe e interessados na história dos movimentos sociais norte-americanos. Dê uma espiada.

4 estrelas

quinta-feira, 8 de julho de 2021

Gears of War 4 (Xbox Series S)

Gears é um dos pilares do Xbox, jogo vitrine da marca e ponta de lança na estratégia de vendas, sendo assim, não se poupam recursos e esforços para entregar sempre um grande jogo. Gears of War 4 (2016), primeiro exemplar da franquia na geração passada, repete a filosofia: um AAA com gráficos espetaculares, jogabilidade refinada e os mais altos valores de produção.

Eu tinha acabado de zerar Sekiro e precisava exatamente de um game assim, superdivertido e (quase) casual, uma montanha-russa de tiro, porrada e bomba. Não é feito pra você morrer, e sim pra avançar correndo e disparando em direção ao inimigo. A trama não é nada muito elaborada, mas cumpre seu papel: uma grande missão de resgate do pai e da mãe de dois dos protagonistas, pontuada por outros pequenos dramas.

Claro, 90% do tempo você vai atirar, mas há tanta coisa impressionante rolando na tela que não enjoa. Sem falar que o jogo foi turbinado pelo FPS Boost e agora roda a gloriosos 60fps. Ficou tão bonito que se dissesem que foi feito hoje todo mundo acreditaria.

Pra ganhar uma nota 9 faltou a adição de mais 2 ou 3 chefes realmente desafiadores (no Gears 5 tem de monte), mas tudo bem, o jogo cumpre com louvor sua função de blockbuster. Quem tem Xbox já sabe...

Nota 8,5