quarta-feira, 12 de janeiro de 2022

Rafa, Minha História - Rafael Nadal/John Carlin

Rafa é uma mistura de biografia e autobiografia, tem capítulos narrados pelo Nadal e outros pelo biógrafo. O livro se encontra absolutamente datado: hoje Nadal possui 20 grand slams e está prestes a disputar o Australian Open. Em 2011 (lançamento do livro) não estava sequer na metade da carreira.

Se você relevar este pequeno grande detalhe, sobra um livro curioso e interessante para fãs de tênis. Nadal, um dos 3 maiores tenistas da história, não conquistou essa posição por acaso. Começou a jogar com 4 anos, teve um treinamento espartano por parte de seu tio, sempre se esforçou ao máximo. Anos e mais anos de jogos e treinos sem fim. Os resultados logo apareceram: primeiro com vitórias sobre jogadores mais velhos, depois com o primeiro grand slam aos 19 anos, a conquista do número 1 aos 22 e, por fim, o último dos 4 grand slams aos 24.

Essa trajetória é contada de forma razoável. Há uma proposta narrativa um tanto inusitada: a final de Wimbledon 2008 (contra Roger Federer) é contada de forma episódica, entremeada pela própria história do esportista. O mesmo esquema se repete no relato da final do US Open 2010 (contra Novak Djokovic), outro marco na carreira do Campeão.

Um livro ok para fãs do esporte, contanto que não se espere muitas revelações ou fofocas, o negócio é chapa-branca até a medula.

3 estrelas

terça-feira, 11 de janeiro de 2022

Um Espião Perfeito - John le Carré

Se você nunca leu John le Carré, não comece por este! Um Espião Perfeito pertence a categoria "livro difícil", é indicado para leitores experientes, de preferência familiarizados com a obra do escritor.

500 páginas de escrita não linear, narração em primeira e terceira pessoa, capítulos gigantescos e "fluxo de consciência" predominante. Levei mais de 2 meses pra concluir essa muralha. Uma experiência literária marcante e não exatamente divertida. De cara, confirmei minha impressão após algumas dezenas de páginas: a história de "espionagem" é apenas pano de fundo pra verdadeira intenção de Carré: contar sua própria história, exorcizar demônios.

O livro trata do sumiço de Magnus Pym, espião britânico suspeito de traição e procurado por ingleses e americanos, não dá pra falar mais que isso. A trama intercala as memórias de toda a trajetória de Pym, com o atual momento em que é caçado. O escritor narra essa saga de modo febril, rigoroso, sem nenhuma concessão ou facilidade pro leitor. Aqui você tem quase zero de diálogos expositivos e tudo exige concentração e determinação.

O mais impressionante é o desfile de personagens, com destaque pra Rick Pym (obviamente baseado no pai do escritor), vigarista carismático sempre acompanhado de uma trupe de seguidores e incautas namoradas, e claro, seu filho e protagonista, Magnus Pym, mitomaníaco, página em branco preenchida pela personalidade mais conveniente, sedutor como o pai. As razões que levam Pym a fazer o que fez nunca ficam claras. O escritor não julga, não dá lição, muito menos explica. É você leitor, que vai encaixar o quebra cabeças e tirar suas conclusõs finais.

E por falar em final, não dá pra negar a força do desfecho do imbróglio, um perturbador plot twist. Enfim, entendo o porquê de muitos o considerarem o grande livro de John le Carré (Philip Roth, por exemplo), e entendo também que não seria justo da minha parte dar 5 estrelas, pois tive dificuldades e momentos aborrecidos na leitura. Indico apenas para leitores calejados e dispostos a desafios. 

4 estrelas

sexta-feira, 31 de dezembro de 2021

Os 10 Melhores Discos que Escutei em 2021

1 Iron Maiden - Senjutsu: Maiden não é banda, é religião! Ninguém no planeta conseguiria fazer uma música como Hell on Earth. Alguns não entenderam a magnitude deste trabalho, mas afirmo que é o melhor desde Seventh Son;

2 Alice Cooper - Detroit Stories: do alto dos seus 200 anos, Titia Alice resolve lançar um disco impecável, aula de Rock da primeira a última faixa;

3 Duran Duran - Future Past: mezzo nostálgico, mezzo moderno. Le Bon e sua turma sabem escrever pop music de qualidade; 

4 Night Flight Orchestra - Aeromantic II: NFO Air informa, aperte o cinto que o Boeing hard/AOR vai decolar. Céu de brigadeiro;

5 Dead Daisies - Holy Ground: a nova encarnação da banda-projeto tem Glenn Hughes, Dough Aldrich e Tommy Clufetos. Hired guns, claro...o que importa é que saiu um discaço; 

6 WET - Retransmission: projeto da Frontiers, Jeff Scott Soto + Martensson (Eclipse) + Säll (Work of Art). De arena rock esse trio entende, como prova cada faixa contida aqui;

7 Nestor - Kids in a Ghost Town: não se engane com os clips estilo Steel Panther, musicalmente o negócio é sério, hard/AOR 80's com aqueles refrãos que só os suecos sabem fazer;

8 Joe Bonamassa - Time Clocks: tem rock, country, soul e claro, blues. Songwriter de primeira o Bona;

9 Mastondon - Hushed and Green: longo, dissonante, psicodélico, depressivo. Escutar de uma sentada não é fácil, mas recompensa;

10 Eclipse - Wired: Erik Martensson não dá ponto sem nó, costura ponte e refrão cuidadosamente em cada uma das faixas do disco. Melodic rock moderno é isso.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2021

50 Livros

 2017

1 Meridiano de Sangue - Cormac McCarthy

2 O Complexo de Portnoy - Philip Roth

3 John Lennon - Phillip Norman 

4 O Falcão Maltês - Dashiell Hammett

5 Os Mortos Vivos - Peter Straub 

6 Marvel Comics: A História Secreta - Sean Howe

7 Dias de Luta - Ricardo Alexandre 

8 Seis Mil em Espécie - James Ellroy 

9 O Sol Também se Levanta - Ernest Hemingway

10 O Batalhão Maldito - Sven Hassel 


2018

1 Pergunte ao Pó - John Fante

2 A Morte de Ivan Ilitch - Lev Tóstoi

3 A Trilogia de Nova York - Paul Auster

4 Agassi - Andre Agassi

5 O Lobo do Mar - Jack London

6 Herzog - Saul Bellow

7 O Estrangeiro - Albert Camus

8 A Casa no Penhasco - Agatha Cristie

9 The Ghost Writer - Philip Roth

10 Putas Assassinas - Roberto Bolaño


2019

1 Os Irmãos Karamazov - Dostoiévski

2 A Grande Arte - Rubem Fonseca

3 Pastoral Americana - Philip Roth

4 O Espião que Saiu do Frio - John le Carré

5 Desonra - J. M. Coetzee

6 Ubik - Philip K. Dick

7 Homem Comum - Philip Roth

8 O Assassinato de Roger Ackroyd - Agatha Christie

9 Dália Negra - James Ellroy

10 Gestapo - Sven Hassel


2020

1 A Insustentável Leveza do Ser - Milan Kundera

2 Coração das Trevas - Joseph Conrad

3 O Grande Deserto - James Ellroy

4 Adeus às Armas - Ernest Hemingway

5 Pssica - Edyr Augusto

6 O Fim da Eternidade - Isaac Asimov

7 1933 Foi um Ano Ruim - John Fante

8 O Irlandês - Charles Brandt

9 The Dirt - Neil Strauss

10 Ficções - Jorge Luis Borges


2021

1 Os Detetives Selvagens - Roberto Bolaño

2 O Teatro de Sabbath - Philip Roth

3 O Inimigo de Deus - Bernard Cornwell 

4 Guga, Um Brasileiro - Gustavo Kuerten

5 Adeus, Minha Adorada - Raymond Chandler

6 O Processo - Kafka

7 Novelas Nada Exemplares - Dalton Trevisan

8 Um Espião Perfeito - John le Carré

 9 Caçando Carneiros - Haruki Murakami

10 Bufo & Spallanzani - Rubem Fonseca

Os 10 melhores livros que li em 2021

1 Os Detetives Selvagens - Roberto Bolaño: "uma carta de amor à minha geração", assim Bolaño definiu as 624 páginas "roman à clef" deste trabalho, onde o escritor dá voz a dezenas de personagens, num impressionante exercício de virtuosismo literário;

2 O Teatro de Sabbath - Philip Roth: este vencedor do National Book Award é um pesado livro sobre sexo e morte. Reflete bem a safra anos 90 de Roth, ápice do grande escritor americano;

3 O Inimigo de Deus - Bernard Cornwell: contador de histórias nato, Cornwell da sequência a Trilogia Artur com um livraço abarrotado de violência e traição; 

4 Guga, Um Brasileiro - Gustavo Kuerten: a ascensão e queda do maior tenista da história do Brasil. O material é cinematográfico, uma montanha-russa de confrontos explosivos contra Kafelnikov, Agassi, Norman, Corretja, Ivanisevic, Rafter, Henman, Safin, Moyá, Ferrero, Sampras, Federer. Sensacional;

5 Adeus, Minha Adorada - Raymond Chandler: o mestre da pulp fiction num texto afiado como uma navalha, o mais puro hard-boiled estrelado por Philip Marlowe;

6 O Processo - Kafka: publicado após a morte do escritor, é uma avassaladora crítica ao judiciário e a toda opressão estatal;

7 Novelas Nada Exemplares - Dalton Trevisan: veloz e econômico, uma paulada desconcertante. Escreve demais o curitibano;

8 Um Espião Perfeito - John le Carré: complexo, difícil, 496 páginas de fluxo de consciência, zero diálogos expositivos. Uma muralha destinada a leitores mais experientes; 

 9 Caçando Carneiros - Haruki Murakami: um sonho que num piscar de olhos vira pesadelo, Murakami é mais assustador que a maioria dos escritores de terror;

10 Bufo & Spallanzani - Rubem Fonseca: nosso grande escritor de romance policial em mais uma daquelas suas histórias tortas, malucas e divertidíssimas.

sábado, 11 de dezembro de 2021

Guga, Um Brasileiro - Gustavo Kuerten

Esperava diversão ligeira, mas não uma epopeia de cair o queixo. Sério, algumas vezes eu quase chorei com as histórias de superação aqui contidas, o material é cinematográfico. 

Imagine você sair de uma cidade com meia dúzia de quadras, num país de tradição quase zero no esporte, e aos 24 anos se consagrar como o tenista n⁰ 1 do mundo. Este arco eletrizante de ascensão e queda é narrado pelo Guga com a simpatia que lhe é peculiar, o cara é carismático e ponto final.

No entanto, nem todo o carisma do mundo sustentaria uma obra literária por si só, é aqui que entra o pulo do gato, aqui que muitos vão ficar surpresos: depois da sempre tediosa, porém obrigatória, passagem pelos primórdios do biografado, começa uma montanha russa de confrontos explosivos contra Kafelnikov, Agassi, Norman, Corretja, Ivanisevic, Rafter, Henman, Safin, Moyá, Ferrero, Sampras, Federer...ufa, é pra tirar o fã de tênis do sério.


Eu, que acompanho bem superficialmente o circuito ATP, confesso que tinha uma visão diferente da carreira do Guga. Na minha ignorância ele era um cara que num lance de sorte chegou ao topo e depois caiu. Estava REDONDAMENTE enganado, ele chegou onde chegou por meio de uma trajetória de talento e superação inacreditável. Em 97 já era 14⁰ do mundo, em 99 5⁰, 2000 1⁰, 2001 2⁰, 2003 19⁰ e 2004 40⁰. Foram 8 anos na elite do tênis mundial, 20 títulos de simples, 3 Grand Slams, 1 Masters Cup (hoje se chama ATP Finals). O cara foi GIGANTE e eu não sabia! Único a vencer Sampras e Agassi no mesmo torneio. 

E não é só, ele poderia ter ido muito mais longe se não fosse a maldita lesão no quadril, que o impediu de jogar no  melhor nível e por fim o aposentou. Não sou de chorar, mas fiquei com nó na garganta das batalhas titânicas nas quadras, no absurdo jogo mental, e claro, nas dores do fim da carreira.

Eu já gostava do Guga, depois disso aqui o cara virou meu ídolo. Um dos melhores livros que li este ano.

4,5 estrelas

quarta-feira, 13 de outubro de 2021

Os Detetives Selvagens - Roberto Bolaño

624 páginas, demorei basicamente 2 meses pra terminar. Não é uma leitura fácil, seu caráter fragmentado, episódico, faz parecer maior que é. Mesmo com essas ressalvas é o melhor livro que li este ano. Um trabalho formidável de Bolaño, que definiu a obra como "uma carta de amor à minha geração", bingo!

É dividido em 3 partes, a primeira é a transcrição do diário de um jovem pretendente a poeta no México dos anos 70, Garcia Madeiro, e sua aproximação a um grupo chamado "real viceralistas" liderado por Arturo Belano (alter-ego do escritor) e Ulises Lima. O que no início parece banal e corriqueiro, logo cativa pelo desfile de personagens e suas particularidades. 

A segunda parte, que corresponde a 80% do texto e leva o nome do livro, reproduz dezenas de depoimentos de dezenas de personagens. Os depoimentos parecem fazer parte de uma grande investigação sobre Belano e Lima, acontece que os depoentes acabam muitas vezes falando mais sobre si. Aqui, nessa enorme coletânea de declarações, Bolaño mostra seu talento excepcional. É simplesmente assombroso como ele encarna os mais diversos tipos sem nunca duvidarmos nem por um segundo deles. Um rigoroso exercício literário.

Na terceira e última parte, retomamos o diário de Madero na sua fuga ao lado de Belano, Lima e Lupe. Um desfecho melancólico e também triunfal, já que deve ter sido um esforço colossal dar luz a um texto epistolar, "roman à clef", gigantesco como esse. 

É uma pena que a bolanomania tenha rolado após a morte do escritor, ele MERECIA ter obtido mais sucesso em vida, de qualquer forma, antes tarde que nunca. Pegue coragem e leia.

4,5 estrelas