sábado, 19 de junho de 2021

Duna - Frank Herbert

Duna, o livro de maior sucesso comercial da história da sci-fi, 20 milhões de cópias vendidas, também aparece em qualquer lista de melhores do gênero, muitas vezes encabeçando a lista. Com essa folha corrida é compreensível esperar muito dele e comigo não foi diferente, a expectativa era alta.

Pois bem, acabei não gostando tanto quanto eu esperava. A primeira coisa que me chamou atenção foi o fato de ser pulp, mas se levar muito a sério, é tudo incrivelmente solene e desprovido de humor. Herbert adota ainda uma narrativa em terceira pessoa que transcreve o pensamento dos personagens entre aspas, recurso que particularmente não me agrada aqui.

Não é mal escrito, apenas um tanto tedioso para um leitor casual de sci-fi como eu. Muitas vezes me desliguei da prosa, outras tive dificuldade de conexão com tudo aquilo. Sim, o livro trata de política, ecologia, colonialismo e com certeza teve um grande impacto nos 60's (teriam os Freman um paralelo com o movimento hippie?), mesmo que hoje sua força esteja um pouco diluída pelas muitas imitações.

É uma história messiânica, sobre um planeta que fornece um recurso valiosíssimo para o universo, mas tem seu povo oprimido pelos colonizadores. Nesse cenário surge Paul Atreides, que ao que tudo indica se encaixa perfeitamente na descrição do Messias que vai levar os Fremen de oprimidos a senhores de Arrakis, ou Duna.

Há uma admirável construção de ambientação, com todo um vocabulário, costumes, demografia, etc. Apesar de eu não ter simpatizado com a escrita de Herbert, entendo o fascínio que Duna provoca ao longo de décadas, tanto que está em sua terceira adaptação para as telas (cinema, série de TV e agora cinema de novo). A história tem uma mensagem ecológica atualíssima e mais relevante que nunca. Com relação aos personagens, confesso que o que fez minha cabeça mesmo foi a bruxa bene gesserit Jessica Atreides, mãe de Paul. Paul mesmo é um tanto insípido, com suas limitações de santidade.

Um bom livro que não me conquistou da forma que eu imaginava, no entanto, você deve experimentar pra entender o porquê de tantos amarem este clássico. Leia e forme sua própria opinião.

3 estrelas

quinta-feira, 17 de junho de 2021

Need for Speed Heat (Xbox Series S)

A primeira vez que testei Heat, ainda no PS4, não gostei. Estava sob efeito do ótimo Payback e achei tudo lento e feio. Acontece que eu estava REDONDAMENTE enganado. Graças ao gamepass tive a oportunidade de dar uma nova espiada no jogo e...foi o que bastou pra entender o quanto fui traído pela minha percepção. Heat é veloz, belo e muito divertido. 

O jogo resgata a tradição dos clássicos Underground e Most Wanted, aqui você tem como cenário uma incrível Miami digital (Palm City), onde fervilham corridas de rua ferozmente combatidas por policiais corruptos. Nada que vá render um Oscar de roteiro, mas diverte. Need sempre foi assim, uma espécie de Malhação sobre rodas, pra desencanar, desestressar e atacar curvas a 200 por hora. 

Além da campanha principal, na qual você vai escolher o carro pista/estrada mais veloz possível, temos ainda provas de drift e off-road. Dica de ouro pra você não gastar fortunas em carros incapazes de vencer: pegue o Mazda RX7 pra drift e a BMW X6 M '16 pra off-road.

Uma pena que Heat não esteja otimizado pra atual geração, já que é um baita jogo lindo, principalmente quando você está em Miami Beach fugindo da polícia a mil pela Ocean Drive.

Se vale a pena? Claro,  contanto que você curta jogos de corrida, e quem não curte?

Nota 8,5

segunda-feira, 7 de junho de 2021

A Plague Tale: Innocence (Xbox Series S)

Uma pérola que não teve a merecida atenção. Ok, as vendas passaram de 1 milhão de cópias e ele foi bem recebido pela crítica, mas ainda é pouco. O que temos aqui é uma inesquecível história passada na Europa do século 14, onde a peste negra dizimava a população e a Igreja católica exercia enorme poder.

Acompanhamos a trajetória dos irmãos Amicia e Ugo, perseguidos implacavelmente pela Santíssima Inquisição em razão de um segredo guardado no sangue do garoto. No caminho vamos encontrando personagens bem delineados como Beatrice e Rodrix, tudo amparado por um excelente roteiro que mistura misticismo, elementos sobrenaturais e realismo mágico.

É um jogo indie com alma de AAA, onde você vai exercitar habilidades stealth em meio a ótimos gráficos (30fps, obviamente, mas sem nenhuma queda de frames no Series S). Tem muita coisa boa aqui, sistema de combate, chefes, árvore de evolução, nada muito complicado, o objetivo é manter você ligado na narrativa. O jogo é absolutamente linear e você só tem uma ou duas formas de passar pelos obstáculos. Agora, se no início a coisa parece fácil, espere só mais adiante...aqui se morre muito, mas muito mesmo, cuidado pra não jogar o controle na TV.

Parabéns pra francesa Asobo Studio, fez um jogão intenso, divertido e marcante, mesmo sem super orçamento. É obrigatório pra quem quer variar a dieta "tiro, bomba e explosão" tão comum nos games.

Nota 8,5

quinta-feira, 27 de maio de 2021

Outriders (Xbox Series S)

Causou furor na indústria por ter chegado no Game Pass no day one, enquanto que os proprietários de Playstation tiveram que pagar preço cheio (mesmo assim vendeu bem!). Trata-se de um third-person shooter AAA, desenvolvido pela polonesa People Can Fly, publicado pela Square-Enix.

Eu obviamente esperava um shooter sólido, mas fui surpreendido com uma ótima trama sci-fi sobre sobreviventes da Terra que chegam a um novo planeta para iniciar a colonização. É bom não falar muito, já que o enredo tem camadas, plot twists e surpresas. Tenho observado desde a geração passada uma melhora geral nas histórias apresentadas nos jogos. O que antes era basicamente pastiche de filmes de sucesso, agora segue uma tendência mais original e cuidadosa.

Se ainda não dá pra dizer que Outriders é um legítimo next-gen, podemos afirmar que ele fica naquele limite cross-gen que traz as mais belas e modernas mecânicas da geração que acabou de terminar. É um jogo bonito, graficamente robusto e de grande variedade de cenários (gelo, deserto, floresta, campos de batalha, etc), além de sensacionais efeitos de luz e som.

Quem optar pela campanha solo vai encontrar um jogo longo e bem estrurado, desafiante em vários momentos. Claro que a coisa que mais se faz aqui é atirar, então temos uma mecânica bem resolvida de mira e cobertura copiada diretamente do melhor modelo: Gears of War. Se não é original, pelo menos não mexe em time que está ganhando. 

Um jogo obrigatório pra todo assinante de Game Pass, veja que se tem sonysta pagando preço cheio, não vai ser você, um privilegiado, que vai ficar enrolando pra jogar, até porque não vai ficar eternamente por lá. 

Nota 8,5

sexta-feira, 14 de maio de 2021

O Processo - Franz Kafka

Segundo consta, Kafka antes de morrer pediu a um amigo chamado Max Brod que queimasse O Processo e outros trabalhos não publicados. Pra nossa sorte seu desejo não foi atendido por Brod, que ainda editou a obra inacabada.

Obra póstuma que é, possivelmente Kafka gostaria de mudar algo aqui e ali, nunca vamos saber. O importante mesmo é que continua forte e atual essa crítica avassaladora ao sistema judiciário, em última instância, a toda opressão burocrática estatal. Quem trabalhou no judiciário ou no serviço público em geral, vai entender perfeitamente o que se passa, mesmo com todo clima absurdo e surreal. É o tal do "estranho familiar" kafkiano.

A história você conhece: K. esta sendo atormentado por um processo do qual não sabe sequer a razão. Devo dizer que não é um livro de fácil conexão, apesar da linguagem clara. Os cenários vão se metamorfoseando como num pesadelo, um labirinto vertiginoso de cartórios de ar parado e personagens estranhos. Os encontros de K. com os personagens femininos também são dignos de nota, Freud lamberia os beiços.   

O Processo é um exemplar cristalino do termo kafkiano. Não é leitura fácil, mas recompensa os interessados. Tente.

4 estrelas

terça-feira, 11 de maio de 2021

Doom Eternal (Xbox Series S)

Que jogo sensacional! É a experiência first-person shooter definitiva: um dos melhores e mais difíceis jogos da história dos videogames. Não adianta eu ficar aqui falando, vá lá e confira pessoalmente a coisa.

A história é básica, o planeta Terra foi invadido pelo inferno e você,  "o cara do Doom", vai ter que matar todos os demônios que encontrar pela frente, no melhor estilo "one man army". Perfeição era a meta da equipe do jogo e eles não contaram conversa: entregaram gráficos inacreditáveis, direção de arte de cair o queixo, música de arrebentar e o sistema de combate mais intenso já registrado. Tradicionalmente, ficar parado em Doom significa morte certa, então correr, pular e esquivar o tempo todo é o "b a ba" da sobrevivência. 

É brutal, instintivo e ao mesmo tempo cerebral, pois o jogador terá que administrar uma gama enorme de comandos, variações de armas e combates, tudo decidido no calor do momento, correndo de bilhões de inimigos e balas. Você morre só de olhar um botão, morre ao dar um espirro...e por falar em morte, bem, aqui você não vai morrer uma e nem dez vezes, vai morrer centenas, milhares de vezes. O jogo vai chutar teu traseiro, vai te moer até tu criares vergonha na cara e jogar com toda a garra e técnica necessárias pra passar de fase. Vale ressaltar que nem tudo é tiro e bomba, temos aqui também um excelente jogo de plataforma, com saltos e puzzles de cenário realmente desafiantes.

Doom Eternal é uma experiência de deixar a pessoa acabada física e emocionalmente, mas no final você tira o chapéu e tem certeza de que acabou de experimentar um marco da indústria dos videogames.

Nota 10

quinta-feira, 29 de abril de 2021

O Inimigo de Deus - Bernard Cornwell

HBO e Netflix dormiram no ponto, a Trilogia Artur tinha potencial pra se tornar a nova Game of Thrones. Acabei de ler o livro 2 e digo que o material é explosivo, cinematográfico sem perder a pegada novelística. Pois foi comprada pelo canal a cabo Epix (MGM). Merecia destino mais nobre.

Inimigo de Deus, o segundo da trilogia, começa exatamente de onde terminou o primeiro: o fim de uma importante batalha e o início de um período de paz, que logo será perturbada pela ameaça saxã e pelas várias intrigas internas. Não é bom falar pra não estragar as surpresas. O livro tem mais de 500 páginas muito bem aproveitadas. Os calhamaços de Cornwell valem o investimento de tempo do leitor, ele tem muitas ideias e as conduz de forma a te tirar do sério, são VÁRIOS os momentos impactantes, reviravoltas desconcertantes, violência e traição. Chega a ser levemente superior ao primeiro da trilogia, O Rei do Inverno.

Cornwell não é um artesão da palavra, escreve toneladas de livros em ritmo industrial e tem seus momentos cafonas, dignos de novela mexicana (como a revelação sobre o passado de Derfel), mas tem a qualidade fortíssima de ser um contador de histórias nato, cheio de boas ideias que fazem valer a pena a leitura, ele tem REALMENTE algo a dizer, é indiscutivelmente um BOM escritor.

Depois da trilogia de Cornwell, você nunca mais vai ver as lendas arturianas da mesma forma, grande parte do material retratado em cinema, televisão e outros livros, vai parecer brincadeira de criança. Vale e muito a sua atenção.

4,5 estrelas