segunda-feira, 28 de novembro de 2022

Adeus, Columbus - Philip Roth

Livro de estreia do grande Philip Roth, provavelmente o maior escritor americano da segunda metade do século 20. A obra de 1959 é composta por uma novela (Adeus, Columbus) e cinco contos, tendo recebido o mais importante dos prêmios literários dos Estados Unidos, National Book Award.

Mesmo com essas invejáveis credenciais, não é o tipo de livro pra todos os paladares, trata-se de um trabalho bastante voltado para o público judeu. Observador sagaz do judeu americano, Roth aborda com conhecimento de causa o choque cultural, as idiossincrasias e o sentimento de não pertencimento característico do imigrante. Ainda não é o escritor de prosa musculosa que conheceriamos mais tarde, mas uma interessante promessa.

A novela título toma praticamente metade das 288 páginas e fala sobre o primeiro amor. Interessante, sóbria e autobiográfica (ao que tudo indica...). Os 5 contos seguintes mantém uma qualidade estável e apresentam momentos irônicos e dramáticos. Muitas vezes a mesma história mistura humor e angústia, como A Conversão dos Judeus e Eli, O Fanático, este último o momento mais tocante do trabalho...bem, eu fiquei com um nó na garganta, mas talvez Roth estivesse apenas rindo do personagem central, vai saber...

Recomendo apenas a fãs do escritor, pra leitores casuais que procuram um primeiro contato, Homem Comum e O Complexo de Portnoy são mais acessíveis. Já leitores calejados podem de cara apostar em trabalhos mais desafiadores, como os consagrados Pastoral Americana e O Teatro de Sabbath. 

3,5 estrelas

terça-feira, 25 de outubro de 2022

A Biografia de Roger Federer - René Stauffer

Não sei se tem uma edição mais atualizada, porém, essa que li vai exatamente até Wimbledon 2009, ou seja, absolutamente desatualizada. Desatualizada e ainda assim divertida, afinal, trata da trajetória do maior artista que o tênis já viu, Roger Federer.

Assim como todos os top players, começou a jogar na infância e mais tarde despontou como campeão juniors. No profissional teve rapidamente seu talento reconhecido, chegando inclusive a demorar um pouco pra conseguir o primeiro grand slam. Quando finalmente conseguiu, acabou a pressão e a porteira abriu: títulos, dinheiro, fama e o progressivo convencimento de que provavelmente aquele jovem da Basiléia era inigualável. Mais do que a frieza dos números e recordes quebrados, a qualidade de seu jogo era sem precedentes na história. 

O texto é competente e direto, no entanto, o biógrafo René Stauffer toma uma decisão editorial a meu ver equivocada: conta toda a história em 2/3 do livro, e dedica a parte final a ensaios que ficam parecendo release de acessoria de imprensa. Ora, seria muito mais orgânico inserir esses textos elogiosos de forma cronológica no conteúdo principal. Inclusive serviria para quebrar a rotina de jogos/números/resultados. 

Como escrevi anteriormente, o livro cobre até a conquista do 15⁰ grand slam (marca histórica na época por superar o recorde de Pete Sampras), registra a chegada de um grande rival (Rafael Nadal), dá conta ainda de uma nova ameaça (Novak Djokovic), mas não escapa de estar irremediavelmente datado (tanta coisa aconteceu...).

Pra fãs de tênis e do grande Federer, boa diversão, mesmo com os problemas que não lhe permitem ultrapassar a cotação de 3 estrelas. 

3 estrelas

terça-feira, 11 de outubro de 2022

Belhell - Edyr Augusto

Um dos melhores livros que li em 2020 foi Pssica, experiência literária rara e de grande impacto. Na época pensei, será que o Edyr Augusto consegue manter essa intensidade em outros trabalhos? Pois bem, acabei de ler Belhell e posso assegurar tranquilamente que mais uma vez o escritor figurará no meu top 10 do ano.

150 páginas velozes como um raio, telegráfico, zero gordura. Começa apresentando pequenos núcleos aparentemente desconectados, que logo vão ter seus destinos irremediavelmente cruzados. É sobre o submundo da violenta cidade de Belém do Pará, seus tipos peculiares, desigualdades e crimes. 

Começa com um personagem secundário, agora traficante, narrando sua história a um escritor, onde desfilam jogadores profissionais, policiais, milicianos, políticos, prostitutas, high society, drogas, traições, dinheiro e o coração de todas as subtramas: um cassino clandestino chamado Royal. Como se não bastasse, ainda temos a presença misteriosa de um serial killer.

A escrita de Edyr é um espetáculo a parte: observador astuto dos tipos paraenses, ele consegue um texto divertido, violento e de uma urgência absurda. Nada de aspas ou travessão, é ponto seguido de ponto e você montando tudo na cabeça a mil por hora. Visceral!

Taí um trabalho que merecia ser best-seller, põe no bolso a grande maioria dos escritores de literatura policial e não falo só de Brasil, não. Se é tua praia, leia pra ontem. 

4 estrelas

sábado, 17 de setembro de 2022

Jazz Branco - James Ellroy

Último livro do "quarteto de Los Angeles", obras que traçam um amplo painel da polícia angelena dos anos 50. Dos 4, esse é o menos satisfatório. A primeira surpresa é constatar que Ellroy abandonou o esquema de 3 protagonistas, agora temos apenas Dave Klein: tenente, advogado e ocasional hitman da máfia.

Porém, não se engane, mesmo centrando fogo em um único personagem, a trama é complexa e difícil de acompanhar como nos anteriores. O problema básico de Jazz Branco é que o motor da trama é um tanto desinteressante: tudo gira em torno de 2 crimes, um roubo e uma invasão de domicílio. Partindo daí, começa o desfile de dezenas de personagens e situações que exigem atenção do leitor. Esse não é o tipo de livro que você lê escutando uma música ou com a TV ligada, nenhum Ellroy é, aliás. 

É bem escrito, claro, muito bem escrito, hard-boiled na veia. Os diálogos velozes e afiados estão lá, bem como as obsessões do escritor (incesto, violência, corrupção, etc), mas menos convicente que em O Grande Deserto, por exemplo. Perto do final o texto da uma inacreditável acelerada que não descartaria ser obra de editor. 

Na conclusão, Ellroy amarra todas as pontas e finaliza de um jeito tão brilhante que quase tasquei 4 estrelas, mas devo ser coerente com as 448 páginas lidas e admitir que 3,5 tá bom demais. 

3,5 estrelas

quarta-feira, 27 de julho de 2022

Diários da Heroína - Nikki Sixx, Ian Gittins

Nikki Sixx é o líder do Motley Crue, banda pioneira do hard rock angeleno 80's, pejorativamente chamado de hair metal. Aqui, o autor reproduz as anotações de 1 ano de sua vida de rockstar, totalmente ancorada na filosofia sexo, drogas e rock 'n' roll. 

Diários da Heroína cobre 1987, desde a composição e gravação do disco Girls Girls Girls, passando pela enorme tour promocional, até a overdose que quase o matou. Não é leitura pra todo mundo: fãs do Motley ou interessados nos bastidores do rock vão gostar, o público comum talvez ache um tanto repetitivo o looping palco, drogas e loucura. Claro que ninguém é ingênuo de acreditar que os diários estão transcritos na integra, com certeza Nikki deu uma boa manipulada em toda informação aqui contida, mas vá lá, é divertido.

Há ainda um imenso posfácil, com um resumo da vida do autor até praticamente os dias de hoje. No final acaba sendo um bom retrato tanto da vida de um rockstar, quanto da de um viciado em heroína. É fascinante, repulsivo e também nostálgico.

3,5 estrelas

sábado, 16 de julho de 2022

Excalibur - Bernard Cornwell

Tragam um Nobel urgente pra esse homem. Bernard Cornwell é daqueles que levam a pulp fiction a um patamar especial, escreve em ritmo industrial e VALE cada uma das centenas de páginas de seus calhamaços. 

Aqui, encerra de forma bombástica a trilogia do Senhor da Guerra, iniciando exatamente onde termina Inimigo de Deus, e sim, teremos grandes surpresas vindo da parte de Merlin e Artur. Cornwell, sempre inteligente, mostra facetas inesperadas dos personagens e cria aquela sensação de que tudo pode acontecer e ninguém está a salvo.

Curiosamente, este terceiro volume é o que mais se permite explicações místicas e esotéricas. No início até estranhei, pois o grande charme da trilogia é justamente essa pegada realista, mas aí entra o final arrebatador e você perdoa qualquer pequeno deslize. A conclusão, um corte seco e cinematográfico, dá um nó na garganta e te faz querer ler mais material do escritor. 

Uma pena que esse material, com potencial pra ser uma nova Game of Thrones, tenha caído nas mãos do canal Epix, e não na HBO ou Netflix. 

4 estrelas

sábado, 4 de junho de 2022

1984 - George Orwell

Lançado em 1949, continua assustador e atual. É provavelmente a distopia mais famosa da literatura, tendo muitas de suas ideias incorporadas a cultura popular. O plot é bem conhecido: num estado futurista totalitário, onde o governo observa cada passo dos cidadãos, Winston Smith resolve se rebelar e ir contra as diretrizes do Big Brother (lider supremo do Partido), assumindo um comportamento que pode levá-lo a morte.

O exemplo mais óbvio da inspiração Orwelliana foi certamente a União Soviética Stalinista (Big Brother = Stalin, Goldstein = Trotsky), tendo sido a obra, desde então, "adotada" por parte da direita como um exemplo dos males de uma sociedade comunista. É uma interpretação válida, porém limitadora. 1984 na verdade diz respeito a qualquer estado totalitário, fala sobre autoritarismo puro e simples, que conforme a história nos ensinou, pode vir das mais diversas vertentes políticas.

O livro não apenas continua atual, como ainda é capaz de acionar gatilhos perturbadores a ponto de inviabilizá-lo aos mais sensíveis. Então fica o aviso de que há descrição de tortura física e mental, além crueldades diversas. Não chega a ser uma leitura difícil, apenas pesada e de elevado teor político.

Agora, o que sustenta o status icônico de 1984, o que o leva a atravessar décadas mantendo a popularidade, é seu caráter visionário. É simplesmente impressionante como ele hoje, 2022, é mais atual do que jamais foi. Você pode criar vários paralelos entre o conteúdo aqui presente e o cotidiano recente: celulares/redes sociais como teletela; relativismo como duplipensamento; revisionismo histórico como Ministério da Verdade; fake news como 2+2=5, e por aí vai.

Por suas qualidades puramente literárias, sólidas 4 estrelas seria a avaliação justa pra obra, acontece que 1984 vai muito além de páginas escritas, é uma força da cultura pop, um farol incansável na missão de alertar o prejuízo que a opressão estatal pode nos causar. 

5 estrelas